O Star System da Globo Filmes

por Fábio Uchôa.

Ao longo dos anos 2000, a Globo Filmes consolidou-se no mercado cinematográfico, propondo uma aproximação efetiva entre cinema e TV. Entre as suas ambições, estavam a transformação de minisséries em longas-metragens, o destaque a estrelas da TV Globo em filmes nacionais, bem como a co-produção de filmes propostos por outros produtores. O reprocessamento de séries televisivas, como Xuxa, Os trapalhões, Casseta & Planeta e A grande família, demonstrou-se um ótimo filão. Outra modalidade bem sucedida foi a co-produção de filmes, sem relação direta com a programação da emissora, a partir de uma forma específica de associação. Em fitas como Cidade de Deus (2002) e Cazuza: o tempo não para (2004), a Globo Filmes entra apenas com a divulgação, incluindo referências ao filme em novelas, programas jornalísticos e programas de variedades.  Neste último caso, a parceria implica em interferências variadas nos projetos; o que permite, possivelmente, modificações na narrativa e no elenco originalmente propostos.

Nos dois modos de produção referidos, há uma lógica simples e bem sucedida: a multiplicação das imagens dos atores/atrizes da TV Globo, num trabalho que aproxima cinema, novelas, minisséries, jornais e comerciais. Um ator se constitui, ao mesmo tempo, como produto e como obra. Por um lado, trata-se de um mero objeto, que realiza uma função técnica e milimetricamente condicionada. Por outro lado, como nas obras de arte, suas criações corporais e interpretações dão origem ao novo. A partir da Globo Filmes, há uma criação padronizada de atores/atrizes, destacando sua presença como produtos. Entre o programa Malhação e os papéis de destaque na Novela das 21hs, há um longo caminho. O mesmo inclui a participação em minisséries, programas humorísticos, bem como papéis de segundo plano, em longas-metragens da própria Globo Filmes. A constante migração limita o trabalho destes profissionais, que não têm tempo para desenvolver técnicas adequadas aos diferentes tipos de trabalho. Seu valor, ao contrário da capacidade de interpretação, é definido pela exposição na mídia – incluindo também a abrangência e a quantidade de cliques na web.

Percebemos a construção de um novo star system, baseado no acúmulo de imagens dos atores/atrizes, veiculados em diferentes meios de comunicação. Há uma reprodução idêntica de imagens, em termos físicos e de atuação. Ao contrário do star system americano estudado pelo sociólogo Edgar Morin, o modelo da Globo não explora as ambiguidades entre atores e personagens. Não existem mais as revistas de fã, que criam quiproquós a respeito da vida pública-pessoal das estrelas, estimulando os espectadores a assistir e a escrever cartas a seus ídolos. Programas como Vídeo Show e Altas Horas, existem como substitutos das antigas revistas de fã. Sua lógica, porém, é diferente. A imagem dos atores/atrizes é a mesma, ipsis litteris, coincidindo com aquela dos personagens interpretados. Os próprios espectadores, como resposta, desenvolvem uma doentia aptidão pelo mesmo. Neste esquema, programas como Pânico e Show do Tom complementam o star system. O que seriam eles, além de meras reproduções do mesmo, realizadas em chave irônica?

Na Globo, a produção de atores em série corresponde a uma clique-percepção: uma percepção voltada ao mesmo. Num trabalho de limitação da interpretação, os atores/atrizes representam a si mesmos. Nada de explicitar as diferenças entre os personagens e a atuação. Há um naturalismo baseado na presença corporal, onde a face e os atributos sexuais têm papel importante. Assim como em outras formas de star system, é possível identificar tipos de atores/atrizes e arquétipos que se repetem.

 

Cléo Pires e Luana Piovani: pin-ups corporais.

Duas atrizes globais recentes, como Luana Piovani e Cléo Pires, exemplificam um tipo específico de atuação. Suas posturas corporais e entonações de voz nunca sofrem modificações. Lembrando as estrelas hollywoodianas, elas representam a si mesmas. Sua interpretação, porém, explicita uma insegurança espontânea. As falas e ações exprimem algo mundano, que é oferecido ao olhar machista enquanto objeto de crítica e de desejo. Elas colocam-se à prova dos risos dos espectadores, como se não estivessem à altura dos próprios personagens. A despeito da insegurança, o corpo constitui o núcleo da atuação: matéria perfeita e desejada, que sacia a clique-percepção.

Cléo Pires na Novela Araguaia (2010-2011)

As atuações de Cléo Pires como Lurdes, em Lula, filho do Brasil (2009), no papel da índia Estela da novela Araguaia (2010-2011), ou ainda como Tati, em Qualquer Gato Vira-Lata (2011), são extremamente próximas. Não se trata de limitação técnica, mas de uma contenção interpretativa, calculada na medida do possível. Longe de ser uma grande atriz, Cléo Pires reproduz uma espécie de pin-up. Nas realizações da Globo, suas atuações fundamentam-se na presença corporal, com a exibição da face, dos olhares e dos sorrisos. Sem densidade psicológica ou monólogos, a atriz associa-se ao arquétipo da ninfeta atraente, rodeada por homens mais velhos e desejos proibidos. A construção desta imagem inicia-se na novela América (2005), com o papel de uma adolescente sedutora, que se envolve com o pai da melhor amiga. Em sua atuação mais recente, no filme Qualquer Gato Vira-Lata, realiza uma jovem estudante que se apaixona pelo professor de biologia. Neste filme, a interpretação apresenta momentos risíveis e, até mesmo, grotescos. É como se a atriz estivesse diante do espelho do banheiro, antes da maquiagem diária, apresentando aos espectadores suas imperfeições e incongruências.

Cléo Pires em Qualquer Gato Vira-Lata (2011)

A atriz Luana Piovani, também com interpretações padronizadas, aproxima-se do arquétipo da mulher perfeita: boa de sexo e entendida de futebol. Sua figura está associada a comédias românticas abrasileiradas, como O Casamento de Romeu e Julieta (2004) e A mulher invisível (2009). Trata-se de uma espécie de Julia Roberts nacional. Em suas interpretações, ganham destaque closes do rosto, ou ainda, o corpo em plano geral. Piovani está sempre trajada de forma insinuante: vestidos justos, decotes, barriga a mostra ou apenhas de lingerie. Suas personagens destacam-se pelo corpo sexy, apresentado como fonte de prazer ao olhar masculino. Em O Homem que copiava (2003), ela interpreta a funcionária de uma Gráfica. Sua atração física, associada a pequenos joguetes femininos, mantém fissurados os homens à sua volta.

Luana Piovani em O Casamento de Romeu e Julieta (2004)

Já em O Casamento de Romeu e Julieta, a personagem Julia é uma linda jogadora de futebol, rainha do Palestra Itália e filha de um palmeirense roxo. A moça é tão bonita, que leva o namorado, líder da torcida do Corinthians, a mudar de time para agradar ao sogro.

O arquétipo da mulher perfeita é coroado em A mulher Invisível (2009), onde Piovani interpreta uma mulher imaginária, criada por um homem enlouquecido, depois de ser abandonado pela esposa. No filme, a personagem Amanda é criação de uma mente masculina: pelas manhãs, de avental transparente, serve o café ao amante; de tarde, usando minúsculas peças de lingerie, faz a limpeza da casa. Tudo isso, em poses bem calculadas, que lembram fotos da Playboy ou desfiles comerciais de roupas íntimas. Com a filmagem da série A mulher invisível (2011), a personagem imaginária migra para a TV, assumindo traços publicitários.

Luana Piovani na Série A Mulher Invisível (2011)

Luana Piovani na Série A Mulher Invisível (2011)

A referida identidade corporal impede que a atriz realize personagens diferentes. Uma tentativa risível acontece na série Na Forma da Lei (2010), onde ela interpreta uma investigadora de policia. Piovani simplesmente não consegue impor dureza e maldade aos gestos. O trabalho só ganha naturalidade quando a personagem afasta-se do serviço, tirando a farda de policial para assumir o papel de dona de casa.

Cléo Pires e Luana Piovani caracterizam-se pela união, entre a imperfeição mundana e o aspecto serial da mercadoria. Em suas atuações, não existem trocas recíprocas envolvendo atores e personagens. Depois de assistirmos aos filmes, restam apenas as atrizes. As possíveis ambiguidades, opondo a personagem na tela à  vida pessoal da atriz, reduzem-se a uma presença corporal perfeita e padronizada. Os deslizes interpretativos, tornando-as ridículas ao olhar masculino, devem ser pensados como sintomas da mentalidade do espectador médio. São exigidas mulheres corporalmente perfeitas, mas ridículas em termos intelectuais. No horário nobre da TV, a apresentadora Luciana Gimenez é um ótimo exemplo. Num momento de afirmação das mulheres como líderes, nos meios políticos e empresariais, os traços sociais desta exigência merecem aprofundamento.

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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