Joaquim Pedro e as visões de Brasil

Por Mônica Rugai Bastos

Mário de Andrade é lembrança recorrente.  Com freqüência penso nesse autor e, desta vez, foi por causa de seu acervo, disponível no Museu do Folclore. Mário foi um visionário. Além de reflexões sobre o Brasil que possibilitaram publicações como Macunaíma (1928), por exemplo, buscou alternativas para a manutenção do patrimônio cultural nacional. De todas as formas estava preocupado com a identidade brasileira. Se é que algo como brasilidade existe, Mário de Andrade buscou-a e tentou descrevê-la. E percebendo-a múltipla, dispersa e não-homogênea, marcada pelas diferenças regionais, por várias culturas, criou um personagem emblemático: Macunaíma.

Cartaz do filme "Macunaíma"

Não pretendo escrever sobre Mário de Andrade, muitos já o fizeram – certamente melhor do que eu faria –, mas sobre a adaptação para o cinema feita por Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988). Confesso que assisti, pela primeira vez, carregada de preconceito: como alguém tinha a coragem de tentar adaptar Macunaíma? O fato foi que adorei o filme (Macunaíma, 1969). Muitos foram os fatores que contribuíram para isso. A começar pela escolha do elenco. Macunaíma é vivido inicialmente por Grande Otelo, ator cuja capacidade dramática tinha espectro muito amplo. Enfrentava tanto o mais denso dos dramas como era comediante dos mais hilariantes. Posteriormente, por Paulo José, ator cuja carreira no cinema brasileiro foi muito profícua nas décadas de 60 e 70 do século XX. Trabalhou com importantes cineastas como Walter Salles, Leon Hirszman, Hector Babenco, Domingos de Oliveira, entre outros. Paulo José faz também a mãe de Macunaíma no filme. Jardel Filho, Dina Sfat, Milton Gonçalves também fazem parte do elenco.

Além do elenco, algumas sequências realizadas por Joaquim Pedro são primorosas e inesquecíveis. A sequência na qual Macunaíma conversa com o Curupira, por exemplo, é sensacional. A entidade sobrenatural dá um pedaço da carne de sua perna a Macunaíma. É um recurso para depois persegui-lo e poder devorá-lo. É assim que o Curupira se alimenta de viajantes desavisados e famintos. Macunaíma come a carne, mas quando ela começa a responder aos apelos do Curupira (o pedaço de carne fala), consegue regurgitá-la e deixá-la em uma poça d’água.

Foto do Parque Lage, no Rio de Janeiro

Joaquim Pedro conseguiu transformar em imagens minha imaginação. Por isso, quando assisti, adolescente, seu filme, encantei-me com cinema. Outra sequência memorável foi a da piscina, da festa na casa do gigante Venceslau Pietro Pietra. Foi filmada no Parque Lage, no Rio de Janeiro, um lugar maravilhoso, dos mais bonitos da cidade. A sequência realizada por Joaquim Pedro misturava cores de maneira muito própria ao período: parecia uma festa hippie. Muito embora a estética hippie e os preceitos de sua proposta cultural tenham feito mais sucesso no Brasil na década de 70, sua resistência ao autoritarismo presente na política, nos costumes, nas roupas já encantava alguns jovens por aqui, principalmente os envolvidos em práticas culturais. O fato é que a juventude vinha se manifestando de inúmeras formas contra o autoritarismo, inclusive o imposto pelas maneiras de se produzir e comercializar a cultura. Eram propostas do que se chamou de contracultura. Várias foram as manifestações importantes de jovens artistas, mas, para lembrar a proposta um tanto psicodélica de Joaquim Pedro, lembro da exposição Opinião 65, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com a participação de Wesley Duke Lee, Luiz Paulo Baravelli, Cláudio Tozzi, Carlos Fajardo, entre outros. A resistência à censura, ao autoritarismo político estava presente nas manifestações artísticas assim como no filme Macunaíma.

Na verdade, na sequência citada, os convidados, Jardel Filho sentado no trono, a piscina cheia de corpos compõem imagens marcantes, psicodélicas, oníricas, uma construção fantástica.

Joaquim Pedro participou de outro projeto de adaptação de livro cuja base era uma visão de Brasil: Casa grande & senzala (1933), de Gilberto Freyre (1900-1987). Na verdade, a ideia de transformar o livro em longa-metragem começou em 1971, e em 1981 o próprio autor aprovou o roteiro escrito por Gilberto Loureiro. Cinco anos depois, Loureiro e Marcelo Pietsch França procuraram Joaquim Pedro e o convidaram a participar do projeto. Impôs uma condição: escrever o roteiro.  Era, como afirmou Ana Maria Galano – organizadora do livro Casa-grande, senzala & Cia (2001) –, o primeiro longa-metragem de encomenda feito por Joaquim Pedro. Para reescrever o roteiro, o cineasta realizou uma viagem por Salvador, pelo Recôncavo, por Recife, Aracaju, Maceió, entre muitas outras cidades. A viagem demorou cerca de 20 dias, nos quais o cineasta entrevistou inúmeros historiadores, mas foi insuficiente para adaptar a obra de Gilberto Freyre. A equipe que escreveria com Joaquim Pedro foi formada em seguida e era composta por Ana Galano, Alice de Andrade e Anna Maria Innecco. Leram cerca de 200 livros para conseguir relacionar as entrevistas dos pesquisadores com fatos históricos e, simultaneamente, dar tratamento ficcional. Foram criando personagens, relacionando as locações, condensando histórias. A primeira versão do roteiro ficou pronta em final de dezembro de 1986, aproximadamente seis meses depois do início dos trabalhos. Essa versão foi lida e aprovada por Gilberto Freyre, que estava ciente de que a adaptação não seguiria ao pé da letra o livro escrito por ele. Não foi o único projeto envolvendo o cineasta e Gilberto Freyre, seu primeiro filme, um curta de 1959, foi sobre o sociólogo. Trata-se de O mestre de Apipucos.

Joaquim Pedro de Andrade

O projeto de filmar Casa grande & senzala não foi concluído por causa da morte do cineasta. Restaram suas anotações, esboços e o roteiro que foram reunidos por Ana Galano no livro já citado. As imagens e esboços criados por Joaquim Pedro mostram um cineasta preocupado com detalhes, intenso, imerso nas preocupações de Gilberto Freyre. Talvez tenha sido isso que me fez apreciar seu filme Macunaíma. As mesmas perturbações, que levaram esses escritores – Mário de Andrade e Gilberto Freyre – a realizarem suas obras, estavam presentes nos filmes de Joaquim Pedro: era essencialmente preocupado com o Brasil.

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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Uma resposta para Joaquim Pedro e as visões de Brasil

  1. Rita disse:

    Oi, Mônica!
    Outra coisa legal do Joaquim Pedro é o jeito que ele transita entre chanchada e cinema novo fazendo um cinema que por um lado é cômico, mas por outro também está carregado de metáforas e críticas à sociedade da época.

    bjs

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