O retorno de “Eles não usam black-tie” ao palco: entrevista com Dan Rosseto e Flávio Guarnieri

por Reinaldo Cardenuto

Em 1958, o Teatro de Arena montou a peça Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Integrante do Partido Comunista Brasileiro, o dramaturgo fazia de seu texto de estréia um compromisso com a militância política da classe popular. Na chave do realismo crítico, o enredo da peça apresentava uma cisão familiar explicada por conseqüências de ordem ideológica: de um lado Otávio, o pai, líder grevista, e de outro Tião, o filho, que se torna um fura greve após descobrir que sua namorada está grávida. Os pontos de vista divergentes dos personagens tornam-se o centro do conflito dramático. O rompimento entre o pai e o filho, construído no decorrer de três atos, espelha uma leitura de época: em Otávio, a defesa de que o povo deve se unir como classe em luta; em Tião, a marca da decisão individualista, daquele que teme o fracasso da greve e age solitário em busca de sua ascensão social. Clássico da dramaturgia brasileira, Eles não usam black-tie deslocava para os palcos, de forma inédita e politizada, o cotidiano e o drama do popular, inaugurando uma tradição que se tornaria muito forte entre aqueles dramaturgos comprometidos com a ideologia da esquerda dos anos 1950 e 1960.

Passados mais de 50 anos, uma nova montagem, ainda em cartaz na cidade de São Paulo, reencena Eles não usam black-tie. Adaptada e dirigida por Dan Rosseto, com Flávio Guarnieri no papel do personagem Tião, a peça recoloca nos palcos o drama da família operária às voltas com a atividade grevista. Em cartaz no MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) até o dia 31 de julho, com sessões aos sábados e aos domingos, a nova montagem, no entanto, não deixa de apresentar diferenças significativas em relação ao texto original de Gianfrancesco Guarnieri. Em entrevista realizada para o blog Sem colírio, os principais idealizadores deste retorno da peça discutem sobre este projeto e procuram responder à pergunta inevitável: afinal, qual o sentido de adaptar, hoje, Eles não usam black-tie para os palcos?

Para maiores informações sobre a peça, consultar: http://www.mube.art.br/?Teatro

Elenco de "Eles não usam black-tie" (2011) na cena de noivado entre Tião e Maria


Na abertura da nova montagem de Eles não usam black-tie, vocês optaram por citar um depoimento de Gianfrancesco Guarnieri sobre o compromisso de seu teatro com o popular. Poderiam comentar esta questão?

Dan Rosseto: Para mim, este compromisso significava um dos motivos para montar o espetáculo. Em sua fala sobre o povo, da defesa de uma causa popular sem aquele realismo terrível que o Plínio Marcos faz tão bem, senti o desafio de encenar Eles não usam black-tie. No vídeo que é exibido antes do início do espetáculo, decidi manter um depoimento do Guarnieri neste sentido porque percebi que tinha conseguido respeitar o seu compromisso com o popular e queria dividir isto com a platéia. Era, para mim, uma das justificativas de montar o Black-tie hoje.

Flávio Guarnieri: Esse compromisso com o povo, com o meio teatral, meu pai manteve a vida toda. Acho que ele foi um homem coerente com seus ideais, com suas posições políticas. Nunca traiu o povo porque, na cabeça dele, seria trair a própria identidade. Ele pensava que a arte não deveria ser jamais de uma elite, mas que deveria pertencer ao povo brasileiro. Um de seus projetos, quando Secretário Municipal de Cultura (1984-1986), foi justamente a tentativa de levar o teatro para a periferia de São Paulo. A idéia era que as companhias teatrais ocupassem gratuitamente os espaços da prefeitura, contando que ao final de suas temporadas levassem espetáculos à periferia sem cobrar ingresso.


Em seu compromisso com o popular, Guarnieri pertenceu a uma geração essencialmente politizada. Em boa parte de suas peças, realizou um teatro realista crítico, preocupado em tornar acessível ao público, pela chave emocional, o debate em torno dos problemas sociais do Brasil. Como vocês avaliam o projeto desta geração? Ele permanece, de alguma forma, no atual cenário teatral?

Dan: Vou responder a esta pergunta de outra forma. Quando tive a idéia de montar o Black-tie, meu interesse foi menos a política e mais a ética. Porque eu penso que hoje em dia o brasileiro, talvez o ser humano, esteja lidando de uma forma diferente com o viver, com o dividir. Ao adaptar a peça – encenada em 1958 para politizar, denunciar – pensei que deveria me afastar de certo ranço esquisito para os tempos de hoje. O mundo mudou e não me parece que é através daquela militância que você vai atingir as pessoas. Embora o público me pareça mais rancoroso, a arte ainda consegue promover um pouco de mudança, consegue tocar em um ponto no qual os indivíduos promovem uma catarse e se libertam. Não é à toa que as comédias românticas, estes roteiros mais emocionais, acabam estimulando as pessoas a irem ao cinema. Para mim, Black-tie me interessou por este lado: levar um pouco mais de ética e de moral ao espectador ao invés de política. Mas eu reconheço que o debate político está embutido na peça. Montá-la sem isso seria assassinar a obra.

Flávio: Mas eu também acho que montar Black-tie hoje seja um resgate da palavra. Você nota que o público está sem paciência…

Flávio Guarnieri como Tião e Lia Antunes como Maria em nova adaptação de "Eles não usam black-tie" (2011)


É interessante, Flávio, que você fale em um “resgate da palavra”. Boa parte da geração do Arena, seu pai inclusive, defendeu nos anos 1970 uma revalorização da palavra diante de um teatro muito performático, que dava mais atenção à encenação do que ao desenvolvimento dramático. Se você puder falar mais sobre isso…

Flávio: Vou citar um exemplo. Eu estava participando de uma montagem de O jovem Hamlet (1996-1997), com direção do Emílio Fontana, em um teatro bem pequeno, modesto. Havia um outro Hamlet em cartaz, com o Marco Ricca, direção de Ulysses Cruz, que tinha uma montagem gigantesca, com fantasma aparecendo e tal. Um crítico comparou a peça do Emílio Fontana com esta e escreveu que o nosso tinha alma. É isso que estou dizendo. Muitas vezes, o mais importante é a fala de Hamlet, não a pirotecnia, não o espetáculo que é somente do diretor. Você esquece o texto do autor e a interpretação dos atores diante do show da encenação. O Dan poderia ter feito um Black-tie pirotécnico, mostrando o morro, mas não precisa. Eu acredito em um teatro que valorize o texto, as coisas a serem ditas. Mas o público, hoje, não me parece muito à vontade para sentar e ouvir o ator falar. Embora eu admita que a nossa montagem de Black-tie tem me surpreendido: o público tem se emocionado muito.

Dan: Mas eu acho que as pessoas estão, sim, com vontade de ouvir. Elas ficam na terapia, ouvindo, tentando resolver os problemas… Me parece que o público precisa se reacostumar com uma dramaturgia da palavra.

Flávio: Amigos meus que não são do meio teatral, que foram ver o espetáculo no último sábado, me contaram que durante uma pizza, após a peça, não pararam de falar sobre Eles não usam black-tie. A montagem gerou uma enorme discussão no jantar, com algumas pessoas defendendo a posição do Otávio e outras a do Tião.

Dan: Mas isso mudou muito. Em 1958, o Tião era como um vilão. Hoje não. Me parece que o público consegue compreender melhor o ponto de vista do personagem.

Flávio: O meu pai sempre dizia que Black-tie não era uma peça maniqueísta, não tinha um herói ou vilão. Cada personagem tinha a sua razão, defendia o seu ponto de vista entre furar ou não a greve. Claro que o público de 1958, principalmente aquele envolvido com a luta política, aderia ao Otávio. Hoje as pessoas compreendem melhor a postura do Tião. Alguns até não concordam com o fato dele furar a greve, mas entendem os seus motivos para isso.

Flávio Guarnieri, como Tião, em cena da peça "Eles não usam black-tie" (2011)


Durante a fala de vocês, duas questões aparecem no centro da nova adaptação de Eles não usam black-tie: o resgate da palavra e a opção por privilegiar um viés ético, menos politizado. Mas me parece que Guarnieri se preocupou em escrever uma peça que discutisse seu tempo. Não apenas questões relacionadas ao Brasil dos anos 1950, mas com uma visão de mundo que era típica do Partido Comunista Brasileiro naquele momento. E fez isso utilizando-se do estilo realista crítico, muitas vezes privilegiando as explicações sociais ao invés do desenvolvimento do drama particular. Levando em consideração isso, qual o sentido, para além da evidente homenagem que vocês fizeram, de encenar novamente Black-tie propondo uma adaptação que é bastante fiel à obra original?

Flávio: Além da homenagem que faço como ator ao meu pai, pelo fato de estar vivendo um personagem que ele interpretou em 1958, há mesmo a questão do resgate da palavra. Eu gosto da nova adaptação. Embora o Dan tenha modificado algumas coisas, amadurecendo dramaticamente alguns personagens, manteve o espírito da peça original. E Black-tie, para mim, cumpre a grande função do teatro, que é o entretenimento. O teatro deveria perder este ranço discursivo, panfletário. Tem que ser bacana, gostoso, divertir o sujeito que saiu de sua casa. A peça do meu pai tem momentos de divertimento, de intensos envolvimentos emocionais. Tem brincadeiras de jovens, a relação familiar e de amizade entre os personagens, mas também possui a discussão política.

Dan: Quando resolvi adaptar Black-tie, foi um ano após montar Quando as máquinas param, do Plínio Marcos. As peças foram escritas em épocas diferentes, mas para mim carregam um pouco da condição brasileira hoje, da classe econômica menos favorecida. Eu batizei estas minhas adaptações de “trilogia do herói torto”, daquele personagem que não se corrompe, não trai o próprio ideal, embora tudo e todos que estão à sua volta conspirem para que ele tome uma atitude contrária à sua ética. Falta agora encontrar o terceiro texto para fechar a trilogia…

Mas depois que eu montei Quando as máquinas param, pensei que seria interessante retomar o Tião de Black-tie, pois ele convive com nove personagens que o tempo todo estão colocando para ele questões não resolvidas. Ele acaba enlouquecendo durante o processo. E há três pontos que me interessam bastante: religiosidade, sexualidade e morte. Não apenas a morte física, mas a morte dos relacionamentos. Para mim, Black-tie trabalha este último aspecto de forma muito intensa. O Tião vive a morte de todos os seus relacionamentos. Ele se transforma, amadurece na dor. Fora que a peça do Guarnieri também possui a morte física. A Jandira, filha mulher do Otávio e da Romana, não existe mais. Em minha adaptação, acabei retirando algumas referências exteriores ao núcleo central, como o violeiro Juvêncio, para transformar a Jandira em uma figura onipresente, que está na fala de todos.

Flávio: Aliás, esta questão da religiosidade tem a ver, em Black-tie, com a política. É a questão de defender a sua crença. Não deixa de ser um tipo de fé.

Sônia Loureiro e Flávio Dias em cena de "Eles não usam black-tie" (2011)

Dan, eu percebo que você se preocupou bastante com a personagem Jandira, no fundo uma ausência. É por isso que no primeiro ato, quando Otávio e Romana falam na filha perdida, você, como diretor, resolveu reforçar na cena os traços do melodrama?

Dan: Exatamente. Pedi aos atores, a Sônia Loureiro e ao Flávio Dias, que fazem a Romana e o Otávio, que interpretasse como se estivessem velando o corpo de Jandira, como se o caixão estivesse na sala de suas casas. Eu queria esta sensação. Eu não mexi na estrutura dramatúrgica desta sequência, mas resolvi intensificá-la na direção. É a única cena forte em que há uma discussão entre dois personagens fundamentais da obra. Eles praticamente não vão se falar mais na peça.


Em síntese, vocês apresentaram vários sentidos para montar Eles não usam black-tie hoje: o resgate da palavra, a homenagem a Guarnieri, o fato da peça possuir “vida” e a ética acima da política. No entanto, me parece que Guarnieri estava muito preocupado com um lado político mais totalizante, do conflito entre as classes sociais…

Flávio: Mas existia a classe operário, não?

Mas aí eu pergunto. Será que a adaptação de vocês não esvazia politicamente Eles não usam black-tie? Ou será que algo deste espírito político da peça permanece?

Flávio: Antigamente, ao se falar em classe operária, a preocupação era falar sobre a classe popular como um todo, sobre quem não tinha dinheiro. Havia um maniqueísmo forte entre ricos e explorador. Esta divisão de classes parecia muito definida. Hoje em dia isto não se sustenta.

Dan: Acho que se eu tivesse adaptado Black-tie nesta vertente mais política, talvez as pessoas não agüentassem a peça até o fim. Vivemos em outra época.

Parece que a solução do Dan foi busca um outro caminho, pelo particular…

Flávio: Na adaptação de Black-tie que o Leon Hirszman dirigiu é que há um tom extremamente político.


É que no filme, em 1980, 1981, o Brasil vivia um momento de ascensão da classe operária e de abertura política da ditadura. Mas, Dan, como foi o seu processo de adaptação? Houve pesquisa?

Dan: Fiz uma pesquisa no texto original. Como minha idéia era realmente diminuir esta questão política, substitui-la por um traço ético, não fiquei muito preocupado em pesquisar o universo da greve. Minha opção foi o lado mais emocional. Eu chamo o que fiz de adaptação, mas foram apenas alguns cortes no texto, como as referências cariocas e de época. Deixei a peça atemporal e foquei mais nos relacionamentos e no desenvolvimento dramático de alguns personagens que apareciam pouco no texto original. Como a Dalva, que estava apenas no primeiro ato, e resolvi colocar na peça inteira: ela virou a costureira que faz o vestido de noiva da Maria, ganhando maior importância no núcleo central.

Demorei cerca de quatro meses e meio para terminar a adaptação. O momento mais complicado para mim, talvez por carregar boa parte do conflito da peça, foi a sequência em que Tião e Jesuíno conversam sobre a decisão de furar ou não a greve. Era a cena de virada do Tião. E se eu estava pensando em fazer uma peça mais ética, tinha que tomar muito cuidado com o que movia psicologicamente os personagens.

Também mexi no final. Ao invés de encerrar a peça com a questão do Juvêncio, de sua música estar tocando no rádio com o nome de outro compositor, resolvi privilegiar o lado mais particular, terminando com a última frase de Otávio após a expulsão de Tião: “Enxergando melhor a vida, ele volta. E se não voltar, paciência. Vai ser mais um filho que eu terei enterrado nesta vida”. Com isso, retomo a questão da morte, da ausência da Jandira.

Greta Antoine como Terezinha e Rodrigo Duarte como Chiquinho


Me parece que em parte a adaptação se preocupou em dialogar com um público mais contemporâneo. Falo isso não apenas pelo repertório mobilizado, mas principalmente pela adaptação ampliar as situações cômicas e melodramáticas da peça. É não apenas o caso de Terezinha e de Chiquinho na cena do beijo, ou da inclusão de Dalva no segundo ato, ou das mudanças no personagem João, mas também pela inserção de uma cena chuvosa, na qual Tião e Maria conversam na noite anterior da greve. Sei que a peça original de Guarnieri carregava na emoção, mas me parece que esta emoção foi ampliada na nova encenação. Poderiam comentar isso?

Dan: Teatro para mim tem que ser clássico. Eu penso que Black-tie tem uma comicidade farsesca. É um texto pesado, denso, e eu senti que precisava aliviar um pouco. Percebi isso durante o ensaio. Por que a opção por ampliar o cômico? Porque eu achava fundamental aproximar a platéia da peça, usar o humor como alívio para que o drama ganhasse mais força.

Flávio: No último sábado aconteceu algo engraçado. No MuBE, a platéia fica muito próxima do palco. Estou na cena final, com a Romana atrás de mim, e de cabeça baixa percebo uma pessoa com um resfriado insuportável. Ela fungava e eu tentava me concentrar. Quando levanto um pouco a cabeça, percebo que não é resfriado. Ela estava é chorando compulsivamente. Acredito que essa montagem tem a capacidade de envolver o público, levá-lo para dentro do palco. A adaptação do Dan foi por este caminho. Tocando o público, a peça cumpre a função do teatro.

Dan: Em 2009, quando comecei a trabalhar com a peça, fiquei muito preocupado com a questão comercial da montagem. Eu não poderia mobilizar um elenco de dez atores e nada oferecer a eles. Naquele momento, percebi que A grande família, criada pelo Vianinha, estava no ar há anos na Globo. Uma série escrita por alguém da mesma geração do Guarnieri e que privilegiava as afetividades e o humor. Um programa refinado, elegante, com roteiro bem escrito e ótimos atores. Eu enxerguei em Black-tie uma estrutura próxima: a relação de família, uma pitada de humor, o núcleo jovem, a questão amorosa… Este foi o caminho da minha adaptação.

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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Uma resposta para O retorno de “Eles não usam black-tie” ao palco: entrevista com Dan Rosseto e Flávio Guarnieri

  1. Belíssima entrevista! Parabens ao reinaldo pela condução, e ao Dan e ao Flavio pela objetividade e discernimento nas explicações e nos detalhamentos da concepção da obra. Lindo trabalho. abç a todos

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