Fernando Duarte: um mestre da luz tropical

por Fábio Uchôa.

O livro Fernando Duarte: um mestre da luz tropical, editado pela Cinemateca Brasileira, é um guia da Coleção Fernando Duarte, depositada pelo próprio fotógrafo na instituição. A edição visual, com ênfase às imagens, fotografias e materiais da coleção, destaca a poética da obra de Fernando Duarte, bem como o processo de tratamento realizado pela Cinemateca Brasileira. Num primeiro momento, nota-se o baixo preço do guia, se comparado a outros similares, na área de fotografia. Fernando Duarte: um mestre da luz tropical, porém, não se limita à simples divulgação dos trabalhos do referido arquivo de filmes. Depois de uma rápida e instigante leitura, ficam algumas questões, relacionadas à preservação e à pesquisa de cinema no Brasil.

Ganga Zumba (1963-64), de Carlos Diegues

No contexto do cinema moderno brasileiro, a contribuição de Fernando Duarte é de extrema importância. Trata-se de um dos principais diretores de fotografia do Cinema Novo. Ao lado de fotógrafos como Luiz Carlos Barreto e José Rosa, de Vidas Secas (1963), Waldemar Lima, de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), e Ricardo Aronovich, de Os Fuzis (1963), Fernando Duarte experimenta as possibilidades da luz tropical. Opondo-se à artificialidade dos filmes de estúdio, como aqueles da Vera Cruz, ele busca a representação de uma realidade bruta, sem grandes mediações técnicas, adequada à luminosidade do sertão nordestino. A partir desta experiência, Fernando Duarte contribui para adaptar a fotografia às condições climáticas brasileiras, levando em conta a alta incidência de luz e de contraste, a precariedade das formas de produção e o engajamento com a cultura popular.

Durante as filmagens de O curso de um poeta (1974), de Jorge Laclette

O tratamento da Coleção Fernando Duarte resulta, principalmente, de um gesto generoso feito pelo próprio fotógrafo. Entre os materiais, encontram-se negativos originais, diapositivos, cópias fotográficas, material de divulgação dos filmes e cadernos de anotações de filmagens. Eles refletem a carreira do fotógrafo, entre os anos 1960 e 1990. Figura humilde, Fernando acompanhou o tratamento da coleção, ajudando na contextualização e na identificação da documentação. Neste projeto, a fascinação dos arquivistas pela documentação a ser tratada ganhou uma terceira dimensão: o convívio cotidiano, a troca de experiências,bem como a admiração recíproca entre os técnicos e o titular da coleção, cujo nome consta entre os organizadores do guia.

Esta relação reflete-se, por exemplo, no sensível diálogo entre a seção de fotografias e a entrevista, presentes em Fernando Duarte: um mestre da luz tropical. Nelas, vislumbramos os diferentes períodos da vida do fotografo, articulados aos materiais da coleção. Destaca-se a militância política. Primeiro, o trabalho n´O Metropolitano, jornal da UNE (União Metropolitana de Estudantes); depois, a atividade junto ao CPC (Centro Popular de Cultura), sintonizada com a construção de uma cultura nacional-popular e democrática.

Dona Elizete Teixeira e João Mariano em Cabra marcado para morrer (1964-84), de Eduardo Coutinho

A participação em Cabra Marcado para Morrer (1964-84) merece um capítulo à parte. O filme era uma produção do CPC, em associação com o MCP (Movimento de Cultura Popular, de Pernambuco). Fernando Duarte compunha a equipe de filmagem que estava em Pernambuco, no dia 1º. de Abril de 1964, quando o presidente João Goulart foi deposto pelos militares. Depoimento e materiais do arquivo indicam a participação do fotógrafo, neste conturbado dia, em que toda a equipe de Coutinho foi caçada pelo exército. Nos jornais noticiava-se que os procurados eram ativistas revolucionários cubanos, ensinando táticas de guerrilha aos camponeses brasileiros. Vale à pena lembrar que, depois deste evento, o filme só seria retomado em 1981.

Antônio Pitanga e Anecy Rocha, em A grande cidade (1966), de Carlos Diegues

Destacam-se ainda as experiências em filmes como Porto das Caixas (1962), Cinco vezes favela (1962), O Padre e a Moça (1966), A Grande Cidade (1966), Ganga Zumba (1963-64) ou ainda o contato com Glauber Rocha para a realização de Maranhão 66 (1966) e Amazonas, Amazonas (1966). Outro ponto interessante é a atuação de Fernando Duarte como professor da UNB – Universidade de Brasília. Ao lado de Maurice Capovilla e Jean-Claude Bernardet, lutou para a consolidação do curso de Cinema, que seria fechado por um reitor militar em 1972.

O texto de abertura do livro, a respeito do trabalho de Fernando Duarte no cinema, também reflete a proximidade entre a equipe técnica e o fotógrafo. A definição da importância de Fernando para o Cinema Novo não respeitou uma simples pesquisa bibliográfica. Os dados técnicos sobre o tipo de luz, os contrastes, as câmeras, as sensibilidades dos negativos usados, bem como as experiências em laboratórios de revelação, resultam de conversas com Fernando Duarte. Conseguidas durante o tratamento da coleção, algumas de tais informações enriquecem a discussão sobre a fotografia no cinema moderno brasileiro.

Ganga Zumba (1963-64), de Carlos Diegues

Um dos planos de Ganga Zumba (1963-64), em que a expressividade da luz cria autonomia, é usado para explicar as inovações promovidas por Fernando Duarte. Observamos a fuga de um escravo. Os movimentos corporais do rapaz, associados à claridade ofuscante do canavial, sugerem um jogo de figuras abstratas. Neste filme, que apresenta a fuga do escravo Ganga Zumba em direção ao quilombo de Palmares, experimenta-se uma nova representação dos negros e da escravidão. As cenas com iluminação reduzida destacam as fisionomias. Nas imagens diurnas, os corpos negros delineados contracenam com a crua luz das paisagens. Como indicado por Fernando Duarte, para amenizar a diferença de tom entre a pele dos atores negros e a roupa branca, era preciso banhar a vestimenta com chá preto. Tudo isso, levando-se em conta a idéia de superexpor as películas em P&B, para evitar os contrastes demasiado violentos.

O tratamento da Coleção Fernando Duarte insere-se num projeto mais amplo, de conservação, catalogação e digitalização do acervo fotográfico da Cinemateca. No futuro, articulado a outros conteúdos do acervo, o material de Fernando Duarte será disponibilizado no BCC – Banco de Conteúdos Culturais.

Estes avanços técnicos ocorrem num momento paradigmático, onde a Cinemateca Brasileira debate modificações em seu modelo de gestão. O último texto do livro, intitulado “Combustíveis para a cultura”, é representativo das mudanças em curso. Há alguns anos, cada vez mais, a cultura é tratada pelo governo e pelas instituições como uma mercadoria. Daí o incômodo causado por algumas definições usadas no texto. Entre elas encontram-se: “economia de acervos”, “economia da cultura”, ou a idéia dos acervos como “combustíveis” para o desenvolvimento do campo cultural. Em oposição à humanidade do tratamento da Coleção Fernando Duarte, tais definições parecem artificiais. A experiência com Fernando Duarte contribui, de alguma maneira, para retomar dimensões orais e imaginárias, ainda presentes nos gestos e sons cotidianos de um arquivo de filmes.

Dados do livro resenhado

MENDES, Adilson Inácio. [et al.] Fernando Duarte: um mestre da luz tropical. São Paulo: Cinemateca Brasileira, 2010. Outros autores: Fernando Duarte, José Guilherme Pereira Leite, José Luiz Herencia e Millard Schisler.

Todas as fotos deste post foram retiadas do livro.

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
Esse post foi publicado em Cinema, Fotografia e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para Fernando Duarte: um mestre da luz tropical

  1. semcolirio disse:

    Caro,
    gostei bastante de seu texto. Bem informativo, desloca o olhar habitual sobre o Cinema Novo, privilegiando o trabalho de um fotógrafo e não de um diretor (autor). O livro sobre o Fernando Duarte parece ser bem instigante. Fiquei particularmente intrigado com o problema apontado no último parágrafo, sobre como os conceitos do texto de encerramento da publicação parecem se adequar a uma visão governamental de cultura como mercado. Seria valioso um texto nesta direção.
    Reinaldo

  2. Victor disse:

    Prezado Fábio,
    achei seu texto uma boa vitrine para a leitura do livro. Acho que as questões levantadas ao final do artigo merecem um desenvolvimento. Proponho um debate.
    Um abraço

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