Manga no cinema nacional

por Mônica Rugai Bastos

Siegfried Kracauer, teórico do cinema, afirma que os filmes refletem a mentalidade de uma nação e de uma época. Isso porque são produções coletivas, ou seja, os filmes manifestam uma mistura de interesses, suprimindo, de certa forma, individualidades em favor de traços comuns a muitas pessoas. Também porque filmes populares são feitos para as massas anônimas, satisfazendo seus desejos. O autor não é ingênuo a ponto de descaracterizar a força de produtoras de impor certos filmes por meio da publicidade exagerada, mas, segundo ele, devem considerar certas características do público, caso contrário, são rejeitados. Por isso, quando nos deparamos com sucessos de bilheteria podemos tentar entendê-los como a expressão de certa mentalidade, própria de um grupo e em determinada época.

De tempos em tempos, a cultura brasileira passa a ser assunto novamente, segundo uma conhecida, “cultura brasileira vira moda”. Atualmente, o Brasil está em evidência por uma série de questões políticas, econômicas e, principalmente, por conta do governo passado ter se disposto a transformá-lo em cenário para os maiores eventos desportivos do planeta: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Mas, essas preocupações são recorrentes: quem somos nós, quais são nossas características enquanto povo, o que nos diferencia enquanto nação, e são temáticas de vários autores nacionais. Sempre se pode questionar se há, de fato, uma cultura brasileira, ou elementos constitutivos do brasileiro enquanto povo, mas tais temas ressurgem neste momento.

O cinema brasileiro também acompanha esses movimentos e são vários os cineastas cujos trabalhos provocam reflexões sobre a temática nacionalista. Carlos Manga é um deles. Seus primeiros trabalhos foram na Atlântida Empresa Cinematográfica S.A. Ali, dirigiu cerca de 20 filmes, criando uma marca de direção. As produções da empresa eram fundamentalmente chanchadas. O nome se aplicava na época a um tipo de produção, sem apuro técnico, que reunia números musicais e se utilizava de recursos humorísticos. Era um gênero burlesco, com certo toque de sátira política. Tinha forte influência do teatro de revista e, no caso brasileiro, dos esquetes apresentados em montagens circenses. Não era um gênero brasileiro, existia também no México, Itália e Argentina.

A Atlântida foi uma empresa produtora de filmes populares, campeões de bilheteria. Suas produções eram musicais, antecipavam sucessos do carnaval nas vozes dos reis e das rainhas do rádio. Além disso, a empresa tinha contratos com grandes diretores – Watson Macedo, José Carlos Burle, Moacyr Fenelon, Carlos Manga –, galãs, estrelas, comediantes e grandes atores. Grande Otelo, José Lewgoy e Anselmo Duarte foram contratados pela empresa durante algum tempo. Oscarito era sua maior estrela. A fórmula de sucessos da empresa era essa: canções carnavalescas, comediantes de primeira e diretores que buscavam agradar o grande público, criando fenômenos comerciais.

Dentre os diretores da empresa, Carlos Manga se destacou. Criava paródias de filmes hollywoodianos, além de fazer citações cinematográficas. Essas foram as principais características de suas produções na empresa. Graças a isso, fez produções memoráveis e sequências antológicas. É importante dizer que Manga não promoveu rupturas da linguagem cinematográfica, ou criou um movimento cinematográfico. Entretanto, ao adaptar-se à produção de uma estrutura empresarial, deixou sua marca graças a pequenas intervenções, não se submetendo à lógica imposta sem criar um jeito próprio de realizar.

Fada Santoro, Oscarito e Eliana em Nem Sansão nem Dalila

Um dos exemplos disso é Nem Sansão, nem Dalila (1954), paródia do filme de Cecil B. de Mille, Sansão e Dalila (1950), conhecido pelos filmes épicos. No filme de Manga, Oscarito faz um barbeiro que viaja no tempo e se torna ditador graças à força adquirida com a peruca de Sansão. Em seus discursos, Oscarito imita Getúlio Vargas, seu sotaque e trejeitos. O diretor tinha a marca de fazer críticas aos poderosos e à administração pública, mas sempre utilizando o humor para tanto. Justamente apoiava-se nos recursos do carnaval: paródias e sátiras.

Outro filme desse tipo é Matar ou correr (1954). Paródia do filme de Fred Zinnemann, Matar ou morrer, um faroeste de 1952, o filme de Manga traz Oscarito e Grande Otelo como o xerife Kid Bolha e seu ajudante, Cisco Cada. Os dois, entre inúmeras trapalhadas, vencem um perigoso bandido, Jesse Gordon, interpretado por José Lewgoy e ganham os cargos.

Grande Otelo e Oscarito em Matar ou correr

A partir daí, os membros do bando do criminoso anunciam que virão resgatá-lo. Há uma sequência em que todos esperam a chegada do trem e a câmera faz closes das pessoas e de um relógio. Trata-se de uma montagem bem feita por Waldemar Noya e pelo próprio Manga.

Além de inúmeras outras paródias de filmes, Manga criava paródias de sequências ou sátiras de personagens. Uma muito conhecida é a imitação de Elvis Presley feita por Oscarito em De vento em popa, filme de 1957. Outra frequentemente reproduzida é a imitação de Eva Todor feita por Oscarito em Os dois ladrões (1960). É uma paródia à sequência de filme dos irmãos Marx, Hotel da fuzarca, de 1938.

Há em O homem do Sputnik (1959) uma espiã francesa personificada por Norma Benguell muito parecida com Brigitte Bardot. Tenta seduzir Oscarito, que é o proprietário do sítio onde supostamente caiu o Sputnik. Nessa sequência produz uma paródia da dança de Cyd Charisse, em Meias de seda (1957), de Rouben Mamoulian.

 

A ideia de realizar paródias não foi de Carlos Manga e sim de José Carlos Burle. Burle afirmava que a única forma de fazer frente aos filmes norte-americanos era a paródia. Isso porque os orçamentos milionários não davam espaço para outros tipos de produção. Burle era politizado: achava que a influência da cultura norte-americana era perniciosa. Manga não tinha essa postura. Ainda assim, não deixava de rir com o cinema de Hollywood, aliás, o utilizava como matéria-prima. Não foram poucas as citações de filmes daquele país em suas produções. Em O homem do Sputnik (1959), sua abertura foi homenagem a Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.

Ou seja, Carlos Manga fez filmes comerciais, no esquema mais próximo à indústria que se teve no Brasil, mas, ainda assim, quis deixar marca própria. Isso significa que, ainda que se faça filmes para o grande público, pode-se levar a alguma forma de reflexão, ainda que seja pela composição de uma farsa, de uma comédia satírica. Esse foi um diretor que não cedeu e realizou filmes nos padrões estipulados por Hollywood, riu-se deles, criou comédias e sequências memoráveis ao realizar um tipo de filme burlesco, que muitos críticos abominavam. Essas comédias se transformaram numa forma brasileira de se fazer cinema, ainda que pobre de recursos técnicos e com roteiros previsíveis. Não era uma forma requintada de se fazer filmes, mas tinha muito do que se pensava sobre o Brasil de então: suas contradições entre modernidade e tradição, entre urbano e rural, entre agrário e industrial. Além disso, construiu uma tipologia que mostrava que o Brasil era formado por malandros, por caipiras, por uma elite esnobe e por um povo que se acha engraçado, que gosta de futebol e carnaval e que acredita que o Rio de Janeiro seja o centro do universo. Às vezes, ao ler os jornais, sinto que estou nos filmes da Atlântida…

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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Uma resposta para Manga no cinema nacional

  1. semcolirio disse:

    Mônica,
    talvez por ter sido um dos diretores mais criativos da Atlântida, conseguindo deixar sua marca em meio às precariedades de produção das chanchadas, Carlos Manga tenha sido aquele que conseguiu melhor se projetar na televisão, prosseguindo com sua carreira até hoje. É realmente impressionante como ele conseguiu deixar um traço estilístico na chanchada, em minha opinião realizando os melhores filmes da Atlântida. Lembro que em uma palestra ele contou sobre uma situação típica da produção de comédias carnavalescas: a equipe desejava reproduzir as luzes que, em musicais americanos, incidiam de cima sobre os corpos dos dançarinos. No entanto, a Atlântida não possuía equipamentos capazes de realizar esta iluminação. A solução, adotada por Manga, foi genial: cortar cartolinas em formas circulares e colocá-las no chão, sob os pés dos “dançarinos”, imitando assim o efeito que a luz gerava no corpo dos atores americanos. Esta história é exemplar do que o seu texto traz à tona ao analisar o trabalho de Manga. Fica a sugestão, para um próximo post, em retomar mais à fundo Kracauer: o primeiro parágrafo deste seu texto me leva a perguntar sobre a atualidade do pensamento de Kracauer, principalmente em torno de como o cinema (e por extensão, a televisão) torna-se um reflexo da mentalidade de uma nação, um povo. Será que ainda é possível sustentar esta hipótese?
    Reinaldo

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