A revolução na forma de imagens

por Mônica Rugai Bastos

Há frases que eu gostaria de ter dito. Uma das minhas favoritas é de Jean-Luc Godard: “A burguesia fabrica o mundo à sua imagem. Comecemos por destruir essa imagem!” O cinema é uma das manifestações culturais que mais tem a ver com a era da burguesia. Mais que uma forma de entretenimento, o cinema criou um mundo de espetáculo que alterou a maneira de se ver as coisas. Estabeleceu padrões de beleza, estipulou comportamentos e representou de forma exemplar a rapidez com que se transformava o mundo. As imagens sucessivas que criavam a ilusão de movimento eram a exata manifestação do mundo burguês: tudo se movimenta para que tudo permaneça igual, ou a revolução permanente que produz vertigem, mas por meio da qual não se vai a lugar algum.

O mundo burguês opera em certa lógica progressiva, evolutiva, num formato linear que naturaliza a ideia de que o novo é bom, o antigo é ultrapassado. Mas, refere-se a um tipo de novidade, principalmente aquela que pode promover o lucro, que pode ser aceita como mercadoria, e, portanto, vendida, consumida, utilizada. Esse mundo comporta-se conforme a racionalidade pragmática, ou seja, a aplicação perpétua da razão, o conhecimento reduzido àquilo que se pode utilizar: aprende-se o que será imediatamente utilizado, caso contrário, não se precisa aprender.

Por isso a importância de rupturas na linguagem cinematográfica: são elas que possibilitam a não identificação, a não naturalização, a não compreensão imediata. Godard faz propostas de quebra da linguagem fílmica, a começar pelas temáticas e pela maneira de captar imagens. O cineasta utiliza câmera portátil, o que permitiu uma mobilidade à qual estamos acostumados hoje, mas, na época, representou mudança. A câmera nas mãos significou novas possibilidades de captura de imagem muito próximas ao olhar humano, mas com ênfase no movimento. Isso fez com que os espectadores, antes quase alheios aos movimentos de câmera, passassem a participar da elaboração dos mesmos. Foi um estímulo aos sentidos, à percepção, uma ruptura com a forma mais passiva de assistir ao filme. Além disso, o cineasta faz tomadas longas e sem interrupções, que forçam o olhar a se acostumar com a falta de mudança. A mudança não está na interrupção dos planos, nem na montagem do filme, mas está expressa na contradição existente nas próprias personagens e nos conflitos de valores a que o público é submetido.

Como muitas vezes a novidade mexe com os sentidos e causa desconforto, estranhamento, Godard sentiu certa rejeição do grande público. No entanto, o momento do início de sua produção – final da década de 50 do século XX – não poderia ter sido mais propício. Na década seguinte, jovens de praticamente todo o mundo ocidental começaram a questionar valores políticos, sociais, econômicos, estéticos impostos pelas gerações de seus pais e avós. Tais jovens tomaram as ruas querendo propor quebras de paradigmas, a subversão das normas e regras anteriores.  Assim, por ser “subversivo”, Godard foi abraçado pela crítica, pelos intelectuais e muitos estudantes, ganhando um público determinado e fiel. Virou representante máximo da Nouvelle Vague do cinema.

Cena de Acossado

Como já se sabe, isso não significou a aceitação do público em geral. Aconteceu o oposto. Sua proposta é indigesta para a maioria, que costuma rejeitar, por princípio, o que é de difícil compreensão. Mas, o incômodo do estranhamento leva à reflexão. A perda do costume da reflexão é que o cinema de Godard demonstra. Em Acossado (1959), Jean-Paul Belmondo é um ladrão que conhece e é atraído por uma jovem. Ele é um assassino, mas o espectador experimenta momentos de identificação com a personagem. Ou seja, provoca sentimentos contraditórios, próprios do ser humano, mas não enfatizados pelas produções de massa daquele período: o maniqueísmo presente nos filmes norte-americanos começa a ser questionado.

 

A partir do final da década de 60, Godard se dirige à produção de um cinema eminentemente político, revolucionário, questionando fortemente a estética, os valores cristãos e familiares da sociedade de então. Forma e conteúdo de suas obras impõem a reflexão sobre a naturalização do mundo burguês, principalmente quanto a dar sentido ao mundo, percepção e entendimento inflexíveis. O diretor utiliza a metalinguagem como recurso nesse processo de desconstrução. Por isso, ele é considerado sempre revolucionário: sua proposta impede a acomodação do olhar, a naturalização da produção cinematográfica. Sua participação no grupo Dziga Vertov é importante. Conhece outra realidade, mais próxima dos conflitos existentes no leste europeu. São dessa fase (um pouco posteriores) os filmes Vento do oriente (1969) – que aborda a prática do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit – e Pravda (1969), sobre a invasão soviética da Tchecoslováquia. Frequentemente o cinema político provoca desconforto. Tenho certa dificuldade de perceber se, realmente, por causa das ideias expressas, ou se simplesmente porque, nesse caso, o filme vira um evidente manifesto e não pura diversão. Todo filme é de alguma forma um manifesto. A evidência disso é que parece incomodar. Na maioria das vezes, o filme é a reafirmação da ideologia mais rasteira presente nas conversas de bar e nas práticas cotidianas. Já que reafirma, conforta: o mundo é assim mesmo…

O problema é quando não reafirma, não quer confortar, mas quer botar em xeque, questionar, como o fez Godard. Embora muitas de suas propostas para a linguagem cinematográfica tenham sido incorporadas pelo cinema de massa, comercial, o cineasta continua produzindo desconforto e talvez por isso tenha tantos “inimigos”. Geralmente, essas pessoas são levadas a criticá-lo por sua postura inflexível quanto ao compromisso de não infantilizar seu público, quanto à não submissão ao cinema como forma de entretenimento. Godard definitivamente não é “divertido”, pressupõe certo discernimento intelectual, certa capacidade reflexiva, vontade própria e repertório. Não tem a característica comum ao cinema comercial de facilitar o conteúdo ou se submeter à lógica do grande público. Por isso, digestão lenta, difícil, conturbada. Mas, diria que vale a pena, se não pela revolução em si, pelo aumento significativo do repertório…

Anúncios

Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
Esse post foi publicado em Cinema e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para A revolução na forma de imagens

  1. Rita Catunda disse:

    Oi, Monica!
    Muito legal. Com certeza a não aceitação dos filmes do Godard se deve ao fato de que na modernidade dificilmente se quer sair da zona de conforto da ideologia e olhar o mundo de frente, questioná-lo.
    O blog tá ficando muito legal, to adorando os textos!
    bjs
    Rita Catunda
    (aluna de cinema da faap)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s