A Poética do Estranhamento

por Sandra Nunes.


A Sierguéi Iessiênin
[Trecho de A Sierguéi Iessiênin, poema de
Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos]

E levam
            versos velhos
                                   ao velório,
sucata
            de extintas exéquias.

Rimas gastas
                        empalam
                                        os despojosos,
é assim
            que se honra
                                   um poeta?


Iessiênin, no Hotel Inglaterra, após seu suícidio, em dezembro de 1925

Em dezembro de 1925, o poeta Sierguéi Iessiênin suicida-se no Hotel Inglaterra, em Leningrado. A dramaticidade do ato -Iessiênin corta os pulsos, escreve com sangue uns versos de despedida e enforca-se nos tubos de calefação – faz com que Maiakóvski, em 1926, lhe dedique um poema.

Os versos de Maiakóvski espelham a indignação com a forma superficial da interpretação desse gesto carregado de tragicidade humana. Mas também permitem que se visualize a sua concepção estética: o abandono das rimas gastas, sucata de uma outra época.

  


“Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas.” [
Maiakóvski, tradução de Boris Schnaiderman].


O brado de Maiakóvski rememora a revolta modernista contra os velhos temas e os procedimentos gastos, antiquados. Com a proposta de destruição dos padrões estéticos, a arte moderna torna-se a arte revolucionária ou a antiarte. A Revolta engloba interferir nos esquemas existenciais dominados pela moral burguesa. O manifesto Bofetada no gosto público valorizará o choque e defenderá uma estética de aversão ao gosto burguês, forçando por meio da forma difícil a atenção do observador.

poema-anel de Maiakóvski, dedicado a Lília Brik, 1923


Incompreensível para as massas
[poema de Maiakóvski, tradução de Haroldo de Campos]
        

Aos pávidos
poetas
                   aqui vai meu aparte:

Chega
         de chuchotar
             versos para os pobres.

A classe condutora,
                         também ela pode
compreender a arte.                      

Logo:
          que se eleve
                     a cultura do povo!

Uma só,
             para todos.                        

O livro bom
                   é claro
                             e necessário   

a mim,
           a vocês,
                      ao camponês
                             e ao operário.


Em A arte como procedimento, de 1916, Victor Chklóvski define o específico artístico como o desenvolvimento de procedimentos que permitam ao receptor ver a realidade de outro modo. O procedimento artístico é o procedimento da representação insólita das coisas.

Para o formalista russo,

“o objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já ‘passado’ não importa para a arte.” [A arte como procedimento. V. Chklóvski].

Kasemir Malevitch. Os trabalhos abstratos - ou não objetivos - do pintor foram chamados de Suprematistas


Busca-se a desautomatização do olhar e do conhecido, possibilitando ao receptor uma nova percepção da realidade. Só a arte permite que a vida volte a aparecer, pois, rememorando Chklóvski,  “a automatização engole os objetos, os hábitos, os móveis, a mulher e o medo à guerra.”

A frase de Chklóvski – “para devolver a sensação de vida,… para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte” – permite um paralelo com as de Maiakóvski, pois em toda obra deste poeta ecoa esse pensamento. 


 

Sugestões de leitura

Augusto e Haroldo de Campos (org.). Maiakóvski: poemas. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora Perspectiva, 2008.

Teoria da Literatura – Formalistas Russos. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1976

Lúcio Agra. História da arte do século XX: ideias e movimentos. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2004.

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
Esse post foi publicado em Poesia e marcado . Guardar link permanente.

5 respostas para A Poética do Estranhamento

  1. semcolirio disse:

    Sandra, gostei da inquietação que seu texto desperta. Creio que o formalismo russo se tornará assunto recorrente em nosso blog. Vejo em seu primeiro texto, o espírito do que desejamos realizar com este nosso site. Em especial, fiquei impressionado com o poema “Incompreensível para as massas”, a este “convite” que Maiakóvski faz para a sofisticação da arte dita popular e, no fundo, para a criação de uma arte de concepção universal, total. Gostei de acompanhar a exposição visual que você apresenta ao leitor: as imagens, que saltam conforme acompanhamos a leitura, instigam o olhar para o além do convencional.

  2. Fábio Uchôa disse:

    Sandra, a idéia de um “cinema intelectual”, formulada por Eisenstein com base no conflito e na coalizão, difere um pouco das propostas feitas por Chklóvski no campo específico do cinema. Isso é um apontamento feito por Albera, no livro Eisenstein e o Construtivismo Russo. Acho interessante compreender melhor essas divergências. Por outro lado, o mesmo Albera aproxima as propostas de Eisenstein e Chklóvski, no que diz respeito a este desvio/des-automatização do olhar, em oposição às estéticas burguesas.

  3. mara selaibe disse:

    Sandra,
    Parabéns pela maneira clara e direta com a qual vc aborda o tema. Eu, leitora interessada e desconhecedora de teoria literária, senti-me convidada a conhecer mais! As imagens escolhidas são tocantes.

  4. filipe doutel disse:

    Sandra,
    Que bela leitura de um acontecimento trágico, realmente uma revolução custa caro em termos estéticos. Concordo com a Mara, bem escolhidas as imagens! bjs
    Filipe

  5. O Loráx é a lâmina que corta os meus pulsos, diariamene, sem sangrá-los. É a faca que amputa os meus sonhos, a corda que me asfixia, mas que me mantém amarrada a vida.

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