Ilusionismo de viés: Cópia fiel, de Abbas Kiarostami

por Reinaldo Cardenuto.

Embora não seja nova, há uma provocação que Abbas Kiarostami imprime a Cópia fiel (2010) em seus minutos iniciais: diante de uma pequena audiência, durante uma conferência na Toscana para divulgar seu novo livro, o escritor James Miller questiona a perspectiva modernista de que a legitimidade da obra de arte encontra-se em sua originalidade. Descontraído, o seu discurso provoca reações de riso no público enquanto opera um desmanche no princípio de que o processo de criação precisaria, obrigatoriamente, conter uma promessa de autenticidade. Celebrada, a cópia passa a ser assumida pela fala do escritor como poética dos novos tempos: a arte, sem perder sua capacidade de mobilizar sentimentos, sobrevive da reprodução constante e consciente de si mesma.

Conforme o filme avança, torna-se evidente que a poética da cópia não se restringe ao discurso proferido pelo escritor, mas é a própria essência do estilo assumido por Kiarostami na composição de seu longa-metragem. A personagem Elle, dona de uma galeria de arte onde são vendidas reproduções de esculturas, mulher à deriva, parece mimetizar outros tantos papéis que Juliette Binoche interpretou no cinema, caso de Ana, de Aproximações, filme realizado por Amos Gitai em 2007. Citando a si mesmo, Kiarostami retoma, de obras como Gosto de cereja (1997) e Dez (2002), o automóvel como espaço simbólico no qual realiza-se o encontro entre a subjetividade dos personagens e a cultura do espaço urbano. De Roberto Rossellini, um de seus mestres, ele “toma de empréstimo” o enredo de Viagem à Itália (1954), a de um casal em crise que transita pela Itália, além de reproduzir um dos traços estilísticos mais fortes desta obra, a anulação das fronteiras entre o documentário e a ficção. De fato, em Cópia fiel, quando James Miller e Elle visitam um museu na vila de Lucignano, a construção da cena parece nos transportar para a experiência de Viagem à Itália: em uma das sequências em que Kiarostami mais celebra a cópia, o fluxo da narrativa ficcional embaralha-se com a fala didática de um guia turístico a explicar que a pintura Gioconda da Toscana, feita por um falsário, é mantida pela galeria como tributo à “originalidade da cópia”.

Cópia fiel

No cinema de Kiarostami, ligado por essência à cultura islâmica, o dilema modernista da cópia, do conceito de vanguarda como ruptura estética, parece ausentar-se, em parte, pelo fato de que há apenas uma originalidade possível, aquela contida na Natureza. O inevitável para a arte, criação do homem, seria a reprodução de uma cópia do mundo aparente, gerando pelas imagens uma espécie de simulação do sublime encontrado na Natureza. Ensaio desta leitura, o filme Cinco dedicado a Ozu (2003), experiência não dramática em que Kiarostami usa o plano-sequência como técnica respeitosa de composição e de contemplação da Natureza, antecede em alguns anos Cópia fiel, cujo centro dramático, a relação tumultuada entre Elle e o escritor, parece reverberar a busca do cineasta por um cinema capaz de provocar, mesmo que cópia, vínculos emocionais com o espectador.

Cinco dedicado a Ozu

Em Cópia fiel, a natureza é a do homem. A certa altura do enredo, na vila de Lucignano, Elle reinventa-se: embora tenha conhecido James Miller há pouco, ao conversar com a atendente de um café ela cria a ficção de ser casada e ter um filho com ele. Para nossa surpresa, aos poucos o escritor adere à ilusão. Após algumas cenas, o seu receio dá lugar ao compromisso com o jogo instituído por Elle. Mesmo sabendo que esta relação é um passo em falso, que no fundo os dois não formam um casal, acabamos por nos identificar com um ilusionismo dramático quase a se naturalizar. A reação do espectador às cenas no restaurante, quando a personagem de Juliette Binoche tenta sem sucesso seduzir o escritor, é geralmente de tensão: embora tenhamos consciência de que se trata de um jogo, compartilhamos do dilema emocional vivido por uma mulher aparentemente casada há anos e cujo falso marido não lhe dá mais atenção. O espectador, enganado, identificado com a simulação do drama, deseja conhecer o desfecho de um enredo que no fundo inexiste. O filme, cujo ponto de partida era o desmanche do original, mobiliza a poética da cópia para construir um drama que se sustenta em fina camada de ficção.

A partir da cópia como estilo, Kiarostami convida à contemplação do homem em suas singularidades. Posto em uma armadilha, justamente a da ficção inexistente, o público se desarma na emoção e adere ao tecido dramático de Cópia fiel. O espectador, instância abstrata de sentimentos, acaba por espelhar uma das imagens mais primordiais da cinematografia de Kiarostami, a do personagem que contempla a natureza ou a criação artística e do qual conhecemos as reações emocionais a partir do plano de aproximação. É assim em Gosto de cereja, quando a narrativa ficcional é interrompida para que Badii observe o pôr do sol; em Cópia fiel, nos inúmeros comentários dos personagens às esculturas e pinturas; e especialmente em Shirin (2008), filme que registra a reação de 115 atrizes, dentre elas Juliette Binoche, diante da encenação de um poema persa do século XII.

Shirin

Em Cópia fiel, Kiarostami confia na persistência e na força do pacto emocional entre o cinema e o espectador: seduz por um enredo em falso e, no ápice dramático, desconstrói todo o procedimento ficcional ilusório para nos relembrar, por distanciamento, que James Miller é um escritor de passagem pela Itália, mal conhece Elle e deve tomar um trem que parte da Toscana às 21 horas. Na seqüência do hotel, em que as lembranças inventadas do casal, cada vez mais detalhadas, pareciam prometer a desfecho do enredo, Kiarostami retira o chão que ele mesmo criou, reconduzindo os personagens ao estado anterior ao jogo ficcional iniciado por Elle. Não à toa, na sessão em que vi Cópia fiel, no Espaço Unibanco em São Paulo, não foram poucas as reações de frustração do público ao descobrir a ausência da conclusão dramática, ao perceber a armadilha da identificação em falso. Cópia fiel consegue manifestar a impressionante força que o cinema tem para gerar a ilusão e, no seu inverso, para decepcionar o olhar que espera a convenção. No fundo, Kiarostami parece crer, de viés, na possibilidade da cópia restituir ao cinema fragmentos de uma aura há tempos perdida.

Cópia fiel

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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4 respostas para Ilusionismo de viés: Cópia fiel, de Abbas Kiarostami

  1. Fábio Uchôa disse:

    Reinaldo, confesso que também fiquei impressionado com este filme. Logo nos acostumamos com o jogo estabelecido entre os atores; percebemos que o importante em Cópia Fiel é o percurso. Qualquer final definitivo empobreceria o filme. Também pensei no Viagem à Itália, filme a partir do qual Rivette tentava definir um cinema moderno. O longo percurso, tratando dos sentimentos e da humanidade; em direção ao coração da Itália; uma volta ao mármore, às pedras, às ruínas. Em Cópia Fiel, o percurso diz respeito à construção da própria identidade, também humana e em constante processo. Trata-se de um experimento aberto. Um ensaio que tem entre seus temas, como você mesmo indica, a construção/desconstrução da identificação e do drama.

  2. semcolirio disse:

    Fábio, você tem razão. No cinema de Kiarostami, muitas vezes o desfecho não é tão relevante quanto o percurso. Me recordo de “Gosto de cereja”, no qual o fundamental não é saber se o sr. Badii se suicidou ou não. O essencial da experiência é acompanhá-lo na jornada em busca de alguém que compreenda o seu ponto de vista, que compreenda a perspectiva do suicídio. Penso que em diversos filmes o Kiarostami esteja mais envolvido com a trajetória. “Cópia fiel” é, sem dúvida, um longa-metragem que vai nesta direção.

  3. filipe doutel disse:

    Reinaldo,
    Me permita discordar da sua leitura. Acho esta obra de Kiarostami em particular muito maneirista – e aí as milhões de “cópias” a que alude pesam tediosamente ao invés de iluminar -, o diretor confia demais na força do pacto ficcional espectador/cinema e se abstém de contar uma história. Pecado capital do cinema de subvenção estatal. Há algo de exaurido no reino da nouvelle vague tardia: não-linearidade, ausência de trama, angústia existencial de abastados, citações en abîme, etc.,etc.. O cinema brasileiro ainda é visto pelos compatriotas com justa desconfiança (cada vez menos justa, diga-se a bem da verdade) por causa desse cacoete: jovens classe média trancados num apartamento, cheirando, bebendo, discorrendo sobre tudo e mais um pouco, 1 cena de sexo por rolo e estamos conversados – a cinematografia do Jabor cabe praticamente toda nestas premissas, muito embora ele seja um brilhante articulista. Sinceramente: depois do que o Benjamin e o Auerbach disseram sobre o assunto original/cópia, no que este filme avança a questão? Estaria mais adequado para uma palestra na Casa do Saber, ou uma soirée do Café Filosófico, mas cinema… Há na Europa, na Ásia, na América e no Brasil, produções fílmicas com muito mais densidade e precisão; a impressão de “profundidade” aí me parece bem enganosa – a cópia de Kiarostami saiu conforme demais. Vejo em produtos de massa como os da Pixar (Up e Wall-E, em particular) uma leitura muito mais fina, cortante e atual do que no gênero filme-europeu-cabeça a que “Cópia Fiel” se filia sem pejo. Isto dito, o prazer da leitura do seu generoso e bem cuidado ensaio mantém-se: sua interpretação é mais forte que o filme. Abs,
    Filipe

  4. Tide Borges disse:

    Oi, Reinaldo. Gostei muito do filme e que você tenha escrito sobre ele. Suas observações sobre este e outros filmes do Kiarostami no que concerne à questão da cópia e da originalidade são muito bem fundamentadas, quando você fala que a originalidade, segundo a cultura islâmica, só se encontra na Natureza e na observação que o ser humano faz dela.
    Mas sabe que ao assistir o filme, além da idéia de cópia e original, também me veio a idéia de verdadeiro e falso.
    E acho que na evolução do enredo entre o escritor e a dona da galeria existe um jogo de verdade e mentira, que remete ao pacto ficcional com o espectador, e nesse jogo (para mim) não ficamos sabendo se ela é ou não é casada com ele. Então este pacto, que faria com que fizéssemos a catarse dos personagens, não se concretiza. Fica em suspenso. E é isso que eu achei mais legal no filme: o espectador também pode jogar de entrar e sair do pacto, sentir as duas sensações.Foi isso que eu achei genial no filme: me proporcionar as duas coisas. Parabéns pelo blog!

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