Reestruturação urbana em quatro atos

por Fábio Uchôa.

Nos últimos anos, o centro de São Paulo está cada vez mais presente nas novelas, minisséries de TV e comerciais de carros. A partir de novelas como Tempos modernos (2010), percebemos um centro metropolitano reurbanizado, reapropriado por uma classe média culturalmente ativa. Séries como Aline (2009-2011) e Amor em 4 atos (2011), ou ainda os atuais comerciais da FIAT,  destacam espaços urbanos conhecidos, sobretudo a partir dos anos 1980, por sua deterioração. A ação de tais imagens, invertendo e tornando opacas as relações sociais existentes, aproxima-se da idéia marxista de ideologia. Produzidas em consenso com o movimento de especulação imobiliária, elas parecem encobrir os verdadeiros conflitos sociais e urbanos presentes na região. Áreas como o Largo do Paissandu, o Minhocão e a Luz, ganham destaque como locais do encontro e da realização de sonhos. Elas aparecem povoadas por dezenas de jovens, sempre antenados com a MPB e com os bares da Rua Augusta.

A apresentação desta classe média descolada, adaptada ao centro paulistano sem maiores conflitos, encobre o longo processo de reestruturação urbana, liderado pelo Poder Público a partir dos anos 1970. As mudanças no zoneamento urbano, o tombamento histórico de construções, os investimentos em reformas, bem como a realização de eventos culturais, estimulam um movimento denominado pelos geógrafos de gentrificação. Tal processo prepara o terreno para futuras especulações imobiliárias, reafirmando a relação entre o espaço urbano e os ciclos de valorização/desvalorização do capital. As modificações propiciam a chegada de novos moradores, especialmente de classe média, bem como a renovação da estrutura de serviços e comércios da região central. Por outro lado, os antigos habitantes são expulsos, por meio do despejo e da ação policial. Em termos sociais, a gentrificação cria um grande conflito, envolvendo o Poder Público, a recém-chegada classe média e os antigos moradores da região. Entre estes últimos, encontramos os catadores de materiais recicláveis e dejetos eletrônicos, os moradores de rua, assim como os “nóias”, viciados em crack que tomam a forma de grandes massas humanas móveis. Este conflito, explícito na vida cotidiana da futura Nova Luz, é simplesmente omitido nas minisséries realizadas pela TV Globo. Numa cidade transformada em mercadoria, a produção de imagens é apenas um dos instrumentos, articulados para a (re)valorização da região central de São Paulo.

A minissérie Amor em 4 atos, apresentada pela TV Globo no início de 2011, encaixa-se como uma luva neste processo. Inspiradas na obra do compositor Chico Buarque, três de seus quatro episódios apresentam histórias de habitantes e trabalhadores do centro paulistano. As imediações do Bairro da Luz e da Rua Augusta servem de palco para os encontros amorosos dos personagens.  No primeiro episódio, Ela faz cinema, dirigido por Tadeu Jungle, a Estação da Luz e o Parque da Luz são apresentados como espaços do desejo. Apesar do grande fluxo de pedestres, as relações ali estabelecidas são calorosas e afetivas. Estamos diante de espaços humanos e desejados; projeções da intimidade de casais apaixonados, que se aproximam, fingem ser o que não são, mas logo se descobrem. Letícia é uma jovem cineasta, em busca da cena final para a edição de um clipe, que se apaixona por um pedreiro. Ela finge ser solteira. O pedreiro Antônio, por sua vez, finge ser o proprietário de um dos apartamentos do prédio de Letícia, situado nas cercanias da Rua Cásper Líbero. Uma pequena coincidência permite o encontro dos dois, pela primeira vez a sós, no apartamento da vídeo-artista. Antes de um gole de cerveja, a aproximação do casal é marcada, ao fundo, pela Estação Luz e pelo desejo de morar num lugar como aquele.

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A Estação é também a solução encontrada por Letícia, para finalizar seu clipe sobre a música Construção, de Chico Buarque.  Na última cena do clipe, o próprio Antônio interpreta um pedreiro que se atira da Estação da Luz, para morrer “atrapalhando o Sábado”. Neste espaço dos desejos íntimos, a união entre pessoas de classes sociais diferentes fornece o tom de happy end.

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Os dois últimos episódios, Folhetim e As Vitrines, dirigidos por Bruno Barreto, são certamente o ponto mais coeso da Minissérie. Embora os personagens desloquem-se por áreas mais nobres, como a Av. Paulista, o imaginário do centro como local sensitivo e de encontro continua predominante. Os dois episódios apresentam a história de Ary, um funcionário da Caixa Econômica que se separa da esposa. A Rua Augusta, com seus bares, inferninhos e motéis, passa a ser o centro da vida afetiva do personagem. Trata-se de um espaço de reconstrução, estimulando o afogamento das mágoas e a abertura para novos amores. Ali, o funcionário desquitado conhece Vera, uma jovem prostituta por quem se apaixona. A partir de então, a história se desloca para regiões centrais da cidade. Em algumas cenas, novamente percebemos o centro de São Paulo transformar-se num espaço humano e desejado. É o caso da longa caminhada de Vera e Ary, entre a Rua Augusta e o Viaduto do Chá. O deslocamento em direção ao centro corresponde a uma imersão na intimidade de Ary. Trata-se de um movimento em busca de um amor correspondido, ou ainda, de uma mulher para sempre desejada. No viaduto, o beijo entre os dois ganha a forma de dois travellings descendentes, tendendo a um contre-plongée que destaca o próprio viaduto e o Shopping Luz: espaços de uma cidade internacionalizada, que se vende por meio de seus cartões postais (re)higienizados.

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Estas notas sugerem alguns dos novos contornos assumidos pelo centro de São Paulo na TV: um espaço da sorte, dos desejos e dos encontros amorosos; um espaço destituído de conflitos sociais. Presenciamos a reafirmação de uma cidade-mercadoria. Cidade esta, imaginária, que certamente influencia os novos moradores do centro, sejam eles artistas ou funcionários de grandes empresas, na decisão de comprar imóveis na região. Vale à pena lembrar a rapidez com que os apartamentos do enorme Edifício Cult, situado nos deteriorados Campos Elíseos, foram vendidos em 2008.

Sugestões de Leitura

MARX, K; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Martins fontes, 2007. (cópia do texto)

SMITH, Neil. Gentrificação, a fronteira e a reestruturação do espaço urbano. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, n. 21, PP. 15-31, 2007. Trad. Daniel de Mello Sanfelici. (cópia do artigo)

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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2 respostas para Reestruturação urbana em quatro atos

  1. Reinaldo Cardenuto disse:

    Fábio, o seu texto me fez lembrar de outras obras que mereceriam um olhar crítico por representar o espaço urbano como local ausente de conflitos sócio-políticos. Me recordo de “Som e fúria”, que foi exibido na Globo, no qual o entorno do Teatro Municipal, em São Paulo, parece a extensão do palco naturalista burguês. Me recordo, também, dos filmes de Domingos Oliveira, em especial “Amores”, “Separações” e “Feminices”, nos quais o Rio de Janeiro, representado sem os recorrentes dilemas sociais, é tratado na chave da Ipanema romântica. Valeria a pena você conhecer, também, o programa de TV roteirizado pelo Vianinha, “Turma, doce turma”, de 1974, no qual o espaço urbano público, desmantelado pela especulação imobiliária, perde a dimensão político-democrática. Gostei de seu texto. É instigante.

    • Fábio uchôa disse:

      Reinaldo, obrigado pelas referências. Fiquei curioso em ver a série Turma, toda turma. Apesar do fenômeno de uma cidade sem conflitos ser, aparentemente, reflexo de uma conjuntura atual, isso vem de longe. Desde a cidade ordenada de São Paulo, a sinfonia da metrópole (1929), passando pela cidade acolhedora do Candinho (1954), de Mazzaropi, o cinema brasileiro parece apresentar, aqui e ali, essa tendência.

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