Luis Buñuel e a desconstrução do olhar

Por Mônica Rugai Bastos.

 Quando penso sobre a padronização de imagens proposta pela massificação da produção cinematográfica, lembro-me imediatamente de um cineasta que fez o caminho oposto: Luis Buñuel. Assistir Um cão andaluz (1928) é, em minha opinião, fundamental para quem acha que cinema pode ser algo além de entretenimento. Esse filme é representante da fase surrealista do diretor. Isso significa que, do ponto de vista do uso da linguagem, ele pretendia romper com a cognição unicamente racional do espectador. Isto faz parte de sua tentativa de construção de uma supra-realidade, que conseguisse reunir o empírico ao ideal, o sonho ao real, o psicológico ao físico, o concreto ao abstrato. Ou seja, a construção de uma realidade que não pudesse ser apreendida apenas pela observação, mas que busca, para a completude de seu sentido, a reação do espectador.

Da esquerda para a direita: Salvador Dali, José Moreno Villa, Luis Buñuel, Federico garcia Lorca e José Antonio Rubio Sacristán. Foto do final dos anos 20, tirada em Madri (Espanha).

É importante explicar a relação de Buñuel com o movimento surrealista. Nasceu no interior da Espanha e em 1917 foi para Madrid, onde conheceu e tornou-se amigo de Salvador Dali e de Federico Garcia Lorca. Com o primeiro, realizou seu primeiro filme, Um cão andaluz. Foi considerado pelos críticos e por toda uma geração de artistas como o primeiro filme surrealista.

André Breton tentou certa vez definir a busca do movimento: “Um tipo de automatismo psíquico que corresponde, de forma muito aproximada, a um estado de sonho, que hoje é difícil de delimitar”. Estudos do autor, sobre o que ele mesmo denominou de escrita automática, buscavam um tipo de escritura rápida, sem revisão ou controle da razão. Segundo ele, o pensamento racional era apenas uma das manifestações da mente humana. O movimento deveria buscar dar formas de expressão para as outras manifestações. O Surrealismo buscava reconciliar aquilo que o senso comum chama de realidade com os processos ilógicos, que emergem dos estados de êxtase ou sonhos, criando uma supra-realidade. Desta forma, não se pode dizer que o Surrealismo expresse fantasias, mas uma realidade superior, composta pelo mundo concreto e pelos estados da mente humana, sejam conscientes ou inconscientes.

Segundo Hauser, “a experiência fundamental do Surrealismo é a descoberta de uma segunda realidade que, ainda que inseparavelmente fundida com a realidade vulgar e empírica é, no entanto, tão diferente dela que a seu respeito só podemos fazer asserções negativas e apontar para as lacunas e cavidades na nossa experiência como provas da sua existência”.

Na verdade, podemos dizer que a ideia central do Surrealismo é a fusão de duas dimensões da existência humana, a empírica e a onírica, tornando-se assim um paradigma da representação total de mundo. As correlações de imagens conseguidas pelo movimento têm a arbitrariedade de combinações existentes nos sonhos. Cria-se um segundo mundo no qual a existência ultrapassa a realidade empírica. O movimento baseia-se no culto ao estranho e na exaltação do imaginário. Busca o maravilhoso e não propriamente o fantástico.

Buñuel realizou dois filmes que denomina surrealistas: Um cão andaluz e A idade de ouro (1930). Depois disso, abandonou o movimento (1931). Segundo ele, ao se fazer um cinema surrealista, o que dever-se-ia buscar é a criação de um conjunto de ideias ou imagens que não permitisse nenhuma explicação racional. Ao realizar Um cão andaluz buscou imagens que não tivessem associação com uma cadeia racional de pensamento. Só assim as portas para o irracional estariam todas abertas. Só assim o público permitiria que as imagens apenas o surpreendessem. Ele e Dali buscavam provocar reação e não cognição, pelo menos, não cognição racional.

Por isso, suas sequências não seguiam a lógica, provocando rupturas na capacidade deestabelecer sentido. Assim, o espectador reagia ao filme, não o entendia. Isso era o que os dois pretendiam alcançar. Entretanto, segundo alguns relatos da época da exibição, o público reagiu de forma bastante intensa: chegou a jogar objetos na tela, além de gritar insultos.

Talvez a sequência mais impressionante – estamos em busca da reação, do sentimento, do emocional – seja a secção do olho de uma mulher. É uma das primeiras do filme. Um homem amola uma navalha, sai do quarto, olha para a lua cheia. Volta e corta o globo ocular, do qual sai uma secreção, uma espécie de grande lágrima. A comparação do olho com a lua é evidente.

Há um corte seco da imagem e uma passagem de tempo de 8 anos. Muito embora as imagens não tenham relação lógica entre si, os elementos, os objetos de cena, os atores e as roupas estabelecem alguma relação entre os vários momentos do filme. Assim, há certo encadeamento das imagens, mas não de forma esperada e, sim, de forma abrupta, descontínua. Por isso mesmo causa reações e não compreensão. Trata-se de produção que busca atingir as sensações do espectador, procurando atingi-lo de forma a romper sua lógica cotidiana, por isso mesmo desconstruir sua percepção mais imediata, sua capacidade de atribuir sentido viciada pela lógica da informação mediada pelos veículos comunicadores.

Essa forma de produzir, filmar e montar, certamente, possibilita uma relação com a imagem que vai além da construção de sentido por encadeamento de ideias. Permite o simples olhar, sem nexos estipulados, sem linha lógica a ser seguida, sem a possibilidade de antecipação. Desconstrói o olhar viciado pela atribuição de sentido, possibilitando a fruição das imagens. Trata-se de uma forma experimental de produção que buscava a experimentação do filme, sem roteiros já estabelecidos, sem as fórmulas que facilitavam o entendimento.

Além da completa abdicação do entendimento comum, o filme traz imagens inusitadas e difíceis de serem absorvidas por que incômodas. A já citada é apenas uma delas. Há inúmeras outras, mas uma é particularmente indigesta: uma das personagens carrega, como se fosse um burro de carga, uma espécie de cangalha na qual estavam presos dois clérigos, dois pianos de cauda com dois burros mortos sobre eles. A imagem é rebatida, o que significa que um piano é o “reflexo” do outro, assim como o burro e o clérigo. Podemos ficar digerindo a imagem por horas, semanas ou anos. O fato é que não saberemos o que, de fato, significa. Aliás, pela proposta dos autores, isso é o que menos importa. A pergunta seria: o que a imagem provoca? Certo mal-estar. Até pelo fato de que sentimos a urgência de atribuir sentido a tudo o que vemos e ouvimos. Sem o sentido mais óbvio, o sentimento é de angústia, de falta, de perplexidade.

A desconstrução do olhar passa pelo sentimento de perda, de angústia e de perplexidade. Talvez por isso, muitos se recusem a experimentar fazê-lo. Entretanto, perder o chão pode nos capacitar para voos incríveis.


Sugestões de leitura  

Sobre Surrealismo:

Arnold Hauser. História Social da Literatura e da Arte.  São Paulo: Editora Mestre Jou, 1980/1982. Volume II..

Sobre a questão do duplo e da representação:

Edgar Morin. O Cinema ou o Homem Imaginário. Lisboa: Moraes Editores, 1980.

Sobre a questão da construção de realidade:

Jean Baudrillard. Le Crime Parfait. Paris: Ed. Galilée, 1995.

Jean-Claude Carrièrre. A Linguagem Secreta do Cinema, Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

Pierre Francastel. Imagem, Visão e Imaginação. São Paulo: Martins Fontes.


Links e sites sobre Buñuel

www.sensesofcinema.com/2005/great-directors/bunuel/

www.contracampo.com.br/20/frames.htm

www.luisbunuel.com/

www.luisbunuel.org/inicio/bunuel1.htm

en.wikipedia.org/wiki/Luis_Buñuel

setimoprojetor.blogspot.com/2011/04/un-chien-andalou-bunuel.html (download do filme)

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Sobre semcolirio

Reinaldo Cardenuto é professor e pesquisador de cinema
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